domingo, 21 de junho de 2009

SEM CONVENÇÕES

Sabe, aprendi a apreciar a solidão dentro de casa. Poder cogitar um banho à meia noite de sábado, por pura falta do que fazer, por nada querer fazer e nada convir. Isso permite a anarquia da vida privada.

Tão bom no começo da madrugada fazer uma seleção de músicas no playlist, levar o laptop pro banheiro e escolher aleatoriamente a música "The Show Must Go On" do Pink Floyd para começar. Depois, correr pro chuveiro com uma latinha de cerveja. Melhor que isso, só quando o banho for de banheira.

Logo após o banho, ainda mal enxuta, acender um cigarro, fino igual a um palito de fósforo, e abrir um livro ou uma revista. Quando cansar, colocar o pijama e assistir a um filme daquele que fica na prateleira meses esperando uma chance de ser visto. Então, no fim, quem sabe, dormir.

O QUE DÓI ÀS AVES


Essa história de sair voando de lugar em lugar vem de uma natureza meio dolorida, melancólica, visceral e selvagem. Às vezes ocorre às aves não mais levantar voo- ao menos não longíquos- já que um bom terreno foi encontrado, daqueles de viver confortavelmente. Onde poderiam criar planos de raízes profundas e construir sonhos sólidos do tamanho que eles fossem. Mas aves não nasceram para terrenos.

Esses alados nasceram para alto de árvores, variáveis de tempos em tempos; Para viver em busca do clima ideal, em corriqueiras migrações. Não têm sua natureza feita para apegos, para horizonte limitado. Mas, ainda assim, se apegam.

O que dói às aves é querer ficar de vez em quando, mas sempre ter que partir, conforme rege sua natureza. Nega-la seria não viver, se trair, perder o canto e o encanto. Já partir, é uma constante dor, mas, de tanto ser inevitada, é necessária para que possa haver o canto.

Foto: Marina Bártholo

quinta-feira, 18 de junho de 2009

SONHANDO FRIO


Um misto de emoções certeiras e solidões costumeiras batido no liquidificador do dia a dia formou uma massa de densas manias compulsivas. De repente, uma personalidade nada homogênea e de cor duvidosa transitava pela rotina vaga do existir e não pensar, não saber e ser.
Certo dia anoiteceu, a terra tremeu. Então amanheceu e the dream is over.

Foto: Marina Bártholo

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Não consegui desfazer a mala.
Acho que não voltei...
Sou par t ida

domingo, 14 de junho de 2009

"Tranquilamente
Como adormece a noite pelo Outono"


Foto: Marina Bártholo

sábado, 6 de junho de 2009

"Escolha"

"Eu te amo como um colibri resistente
incansável beija-flor que sou
batedora renitente de asas
viciada no mel que me dás depois que atravesso o deserto.
Pingas na minha boca umas gotas poucas
do que nem é uma vacina.
Eu uma mulher, uma ave, uma menina…
Assim chacinas o meu tempo de eremita:
quebras a bengala onde me apoiei, rasgas minhas meias
as que vestiram meus pés
quando caminhei as areias.

Eu te amo como quem esquece tudo
diante de um beijo:
as inúmeras horas desbeijadas
os terríveis desabraços
os dolorosos desencaixes
que meu corpo sofreu longe do seu.
Elejo sempre o encontro
Ele é o ponto do crochê.
Penélope invertida
nada começo de novo
nada desmancho
nada volto

Teço um novo tecido de amor eterno
a cada olhar seu de afeto
não ligo para nada que doeu.
Só para o que deixou de doer tenho olhos.
Cega do infortúnio
pesco os peixes dos nossos encaixes
pesco as gozadas
as confissões de amor
as palavras fundas de prazer
as esculturas astecas que nos fixam
na história dos dias

Eu te amo.
De todos os nossos montes
fico com as encostas
De todas as nossas indagações
fico com as respostas
De todas as nossas destilairias
fico com as alegrias
De todos os nossos natais
fico com as bonecas
De todos os nossos cardumes
as moquecas."
[Elisa Lucinda]

"CREDO"

"De tal modo é, que eu jamais negá-lo poderia:

sou agarrada na saia da poesia!
Para dar um passeio que seja, uma viagem de carro, avião ou trem, à montanha, à praia, ao campo, uma ida a um consultório com qualquer possibilidade, ínfima que seja, de espera, passo logo a mão nela pra sair.
É um Quintana, uma Adélia, uma Cecília, um Pessoa
ou qualquer outro a quem eu ame me unir.
Porque sou humano e creio no divino da palavra, pra mim é um oráculo a poesia!
É meu tarô, meu baralho, meu tricot,meu i ching, meu dicionário, meu cristal clarividente, meus búzios, meu copo d'água, meu conselho, meu colo de avô, a explicação ambulante para tudo o que pulsa e arde.
A poesia é síntese filosófica, fonte de sabedoria, e bíblia dos que, como eu, crêem na eternidade do verbo, na ressurreição da tarde e na vida bela.
Amém!"

[Elisa Lucinda]

sexta-feira, 5 de junho de 2009

A felicidade não é o contentamento.
É, antes, o descontentamento,
o eterno movimento para conter
o incontentável

É não conseguir,
e, sobretudo,
querer buscar.

Nada é mais triste
que a vida nula
em que nada cresce,
começa ou
continua.
Somente termina.

Nada rima com sempre
Já o agora rima
com ir embora
e com demora

Uns precisam falar para calar o que grita por dentro,
Outros precisam calar para falar o que grita por dentro;
A renúncia é sublime, não tem patamar.

É que hoje eu tenho mais poesia
Hoje, eu sou feliz todo dia

ESSA UMA VEZ

Uma vez, eu morei pertinho do aeroporto. À noite, eu deitada no escuro, via pela janela um avião passar. Enxergava luzes e rodinhas, prontas pra rodar. Fazia tanto, tanto barulho aquele que chegava... Incrível, mas dava medo ver algo tão grande, que esteve tão alto, vir pousar por perto.
Depois do silencio, eu dormia.

Essa manhã, na penumbra, eu vi pela fresta da cortina um passáro passando... Indo e voltando. Era tão silencioso aquele bater de asas! Incrível, mas me senti convidada: - Não fique aí travada!
Depois do canto, eu levantei.

terça-feira, 2 de junho de 2009

CREPUSCULAR

CREPUSCULAR é a bela melancolia
não é alegre
não é triste

é o nulo colorido
de cores inesperadas
na eternidade natural

o raio que penetra
o bréu
o bréu que anoitece
o sol

um matiz constante
de nuances macro

é sutileza
segredo
silêncio
pássaro voando

é passageiro...
sempre volta
às vezes falta

é provável
imprevisível
e admirável

só admirável

em seu completo
e inútil
mistério

Lá pro meio de maio, início de junho, é a época que você diz em que Brasília fica mais bonita. Pois, nesses tempos, o céu da cidade tem menos nuvens e proporciona os mais belos crepúsculos.
É dessa época, de belos fins de tarde, o nosso amor crepuscular.

domingo, 31 de maio de 2009

"Aprendi a ser como a primavera, a me deixar cortar para voltar sempre inteira"
[Clarice Lispector]

sexta-feira, 29 de maio de 2009

IMPULSIVIDADE VICE-VERSA

o impulso
impulsiona
o pulo
acomete
o pulso
liberta
o silencio
ilumina
a alma
voa
as asas
impulsivamente

quarta-feira, 27 de maio de 2009

MEMÓRIAS DE UM FUTURO FICTÍCIO

Reconheceria aqueles olhos em qualquer lugar. O escuro da sala de cinema não seria suficiente para ofusca-los.

Após o filme desinteressante, levantei-me da cadeira assim que os créditos começaram a correr. Atitude reprovável a qualquer jornalista cultural, mas não estava ali para avaliar, anotar dados ou sondar uma provável pauta. Estava para passar o tempo daquela noite, fermentando a grande massa da indústria cultural.

Apesar de ter sentado na cadeira do canto, a mais próxima do corredor, buscava sentir-me, por momentos, mais uma cara sem identidade misturada a tantas outras, que perambulam pelos espaços públicos em pares, grupos ou unitárias, como num cardume. Ter cara de ninguém.

Havia tido poucas oportunidades de ser ninguém nos últimos tempos. Ultimamente só havia sido eu; eu colega de redação, eu que dirige mal, eu que não é daqui, eu do patins no parque, eu das amizades por perto e distantes, eu que desapareceu, eu das folgas junkies e plantões hardies, eu dos passos largos, eu contato no seu e-mail e número no seu celular, eu de tantas coisas e de tantos lugares, de tantos eus e tantos outros. Mas isso de ser ninguém, eu quis reexperimentar.

Parecia fácil nessa cidade de milhões de pessoas, naquele cinema atípico, numa sessão improvável. Mas eu reconheci aqueles olhos, que se esbarraram brutalmente com os meus na saída apressada da sala escura. Contrariadamente, eu não poderia mais ser ninguém. Era, inteiramente, o encontro com o eu e o outro do passado, com aquelas duas janelas que eu veria abertas em qualquer lugar.



Trabalho de André Dahmer. Retirado do Malvados

terça-feira, 26 de maio de 2009

DAS ILUSÕES PERDIDAS E PERDAS ILUDIDAS

Passamos a vida nos desfazendo de ilusões que adquirimos quando criança. Nunca nada se resolveu num "passe de mágica". Evite tantas fantasias para as crianças e tenha adultos melhores resolvidos.

Depois que percebemos que o mundo nunca pára, passamos a ter medo de parar também. Mas quanto mais ando, mais rápido o mundo parece girar... Por isso a pressa, a sensação de atraso.

Chega o dia em que você esquece a idade que tem. A pouco fiquei na dúvida se eu tenho 20 ou 21... Chequei no orkut. Talvez daqui pra frente seja sempre um ano a mais e pronto. Ou um a menos...

Não mata, mas pode machucar. A maioria das coisas da vida são assim... Mas parece que tudo passa. Pode demorar, mas passa. Ouvi dizer.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

20 COISAS QUE EU GOSTARIA QUE VOCÊ SOUBESSE

  • Acesso seu blog todos os dias na esperança de ler sobre algo que descobriu ou sentiu, mas 98% das vezes me deparo com o mesmo;
  • Penso em você muitas vezes por dia e sempre me pergunto se você faz o mesmo;
  • Na verdade, sempre acho que minhas atitudes, pensamentos e sentimentos não são recípocros;
  • Me encho muito de alegria quando você liga;
  • Eu choro lembrando de você, da gente;
  • Preciso muito de palavras e sempre sinto falta das suas, principalmente nesta distância em que palavras são um dos poucos meios de alcance;
  • Sempre fui um bocado imprudente com meus sentimentos, mas carrego o mínimo de auto-preservação. Poderia te amar muito mais se você deixasse;
  • Um dia quero ter metade da praticidade que você mostra ser dono. Parece ser mais fácil viver com ela;
  • Uma das suas coisas que me instigam é o mistério. Até hoje, tento descobrir, aos poucos, como passar da superfície dele. Parece impenetrável;
  • Acho você super particular. Apesar das intimidades, não me lembro de me sentir totalmente íntima a você;
  • Me apaixono cada vez que você me olha profundamente e levanta suas espessas sombrancelhas, com um sorriso contido nos lábios acompanhando. Quase sempre termina com sua mão na minha bochecha;
  • Choro sempre que lembro de cada uma dessas vezes, porque foram algumas das poucas ocasiões em que você disse que me amava, mesmo sem dizer;
  • Falando nisso, nunca esqueci dos seus olhos a quatro dedos de distância dos meus no dia em que te conheci;
  • Às vezes acho que você só me procurou por carência, outras vezes acho que você não sabe o que é isso, e em outras insisto em achar que você gostou mesmo de mim;
  • Só você me deixa cara a cara com minha melancolia;
  • Minha rotina complicou sem você;
  • Eu te amo e gostaria mesmo de não me importar que você quase nunca expresse isso dizendo ou pronunciando silenciosamente esta frase;
  • Imagino que você ache demonstrações de afeto bregas demais... ridículas, como "DRs" e esse post. Mas elas são deliciosas... Bom mesmo é não temer o ridículo.
  • Não me arrependo de nada em relação a nós, mas gostaria de ter passado o carnaval com você.
  • Minhas amigas acham que você não merece minha dedicação porque parece não corresponder suficientemente e dizem que estou cega e ilusionada de paixão. Seja isso ou não, as coisas que disse nos tópicos acima são o que penso, sinto e quis dizer... Antes de tudo sou fiel aos meus pensamentos e sentimentos.

TREMA ¨

O que me resta dos últimos dias são lapsos de memória.
Viver também é esquecer.

sábado, 23 de maio de 2009

ALLEGRETTE, MA NON TROPPO

Hoje é mais um daqueles dias em que tudo o que eu preciso é de um par de patins.
Meus pés ganhariam rodinhas e minha vontade de partir ganharia velocidade.
O vento entraria nos cabelos e o movimento na alma.
E no momento de velocidade, fuga, vento e movimento sobre rodas pairaria aquele perigo, aquele friozinho na barriga. Um risco gostoso de correr. A sensação livre de viver.

Viver é aprender a conviver consigo.

terça-feira, 19 de maio de 2009

P.Q.E.V.I.

Primeiro teste do Plano de Qualidade Emocional e Valorização do Indivíduo:
Invenção da Felicidade Independente

Definição: Sentimento de felicidade inabalável por segundos ou terceitos, sendo estes fatos ou pessoas;

Passo 1- Perder o medo de perder.

Estratégia de alcance:
Meditação para auto-convencimento
Experimento em situações de pouco risco. Elevar o risco na medida em que a segurança aumentar.

Ps. As estratégias ainda estão vagas pois trata-se de um experimento qua ainda não foi experimentado.

domingo, 17 de maio de 2009

DAS TENTATIVAS

Nos últimos tempos suas tentativas de curar a dor tem sido múltiplas.

Trabalho incessante, daqueles de fôlego único. Acorda mais cedo do que precisaria e dorme o quão tarde as produções exigirem. Come informações, solta informações, produz... "Ajuda a evitar pensamentos desnecessários", avalia. O cansaço é aliviado na noite que der. "Mas isto [cansaço] é uma sensação que inibe várias outras", pondera.

Depois da estratégia de desvio de foco, a busca pela anestesia é intensa.

Buscar vitórias em jogos de habilidade até a embriagues tirar tudo do foco, é um dos exemplos da mudança de estratégia. A embriagues, segundo Baudelaire, é a mais importante forma de anestesia e pode acontecer por vários artifícios.

Quando há tempo, o sono é uma forma de embriagues,anestesia, de inércia sentimental. "O sono é uma forma de anestesia muito vulnerável porque nele habitam os sonhos que não podemos controlar e nem interromper racionalmente. Só cometo [o sono] porque o físico exige mesmo", afirma.

Talvez por isso tenha apostado em outras válvulas de escape. Multiplas. Além de variáveis doses etílicas, exige densas doses de fumaça. "Com ela [fumaça] tudo fica confortavelmente em seu lugar e só se sente o prazeroso", diz. Às vezes a necessidade do conforto aparece e é saciada quase todos os dias da semana. Outras, se resume ao final de semana. "Final de semana é quando a dor mais dói", lamenta. Os dias que teoricamente são os mais prazerosos e libertários são, na verdade, onde as coisas ficaram mais fora do lugar.

"Nos finais de semana a casa sempre enche de gente com idéias cheias de energia que sabem me fazer companhia", lembra. O papo com outros é o único momento, por ser o mais seguro, para encarar as dores. Saber que todos tem as suas estimula o ânimo coletivo. Quando há fases de dores (a maioria das fases de nossas vidas, como afirmaria Schopenhauer) a animação é essencial. "Afinal, todas essas tentativas de cura nada mais são que alimento à força, esta que nos permite continuar em movimento. O importante é não parar", conclui ela, em um momento de embriagues.


"Não pense
Que a cabeça agüenta
Se você parar
Não! Não! Não!"
[Raul Seixas]

sábado, 16 de maio de 2009

MAIS

"Que é que eu quero da vida?
Desta vida que me deu tanto.
Quero é mais. Mais vida.
Mais amor. Até mais dor.

Só aqui, nesta noite. Bebendo só,
Eu me pergunto: Que é que eu quero?
Acaso me pesa a liberdade de amar?
Quisera, talvez, um novo amor cabresto?

O certo é que algum medo me dá.
Um novo amor, em flor, nesta quadra.
Haverá, na vida, coisa melhor?
Sei não. Não sei viver sem amar."
[Darcy Ribeiro]

terça-feira, 12 de maio de 2009

Às vezes a vida cansa...
Mas é justamente nesses momentos que mais temos que nos mexer.
Foi isso que aprendi sobre não "deixar a peteca cair".
O essencial é que o movimento não pare.

domingo, 10 de maio de 2009

IDENTIFIQUE

Gosto de me identificar.
Adoro me identificar com as pessoas.
Uma tem o mesmo estilo de vida, a outra sente igual.
Aquela sonha o mesmo e essa te faz rir.
Cada qual com uma pequena particularidade que combina com a do outro... um pedacinho do que se é.
Este é o encontro com "o outro" que Fernando Sabino tanto fala. Encantador a identificação, o confronto. Assim cada qual se encontra no outro, se identifica e descobre sua própria identidade.
Não há autoconnhecimento maior que o obtido na convivencia. Nem mesmo o da solidão.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

"Eu quero uma licença de dormir,
perdão pra descansar horas a fio,
sem ao menos sonhar
a leve palha de um pequeno sonho.
Quero o que antes da vida
foi o sono profundo das espécies,
a graça de um estado.
Semente.
Muito mais que raízes."
[Adélia Prado]

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Esse outono é como minha saudade.

Traz noites frias que congelam a solidão,
dias úmidos que borram as lembranças,
fins de tarde que recordam com nostalgia
a melancolia da ausencia no passar do tempo...
E o amanhecer com cheiro de chuva
traz a afirmação de que tudo continua,
como uma garoa tênue e ininterrupta,
sempre e sempre
com a solidão, e as lembranças,
a melancolia, e a ausência,
no "excrucitante" passar do tempo...
Que
minha saudade não passa.

Gosto quando chove porque é como se o tempo tivesse tomado minhas dores e o céu as chorasse por mim.