sexta-feira, 16 de outubro de 2009

"- O que é que você quer?
- Não quero nada, respondi. Quero o que as coisas quiserem.
- Ninguém pode passar sem querer. Está com medo de querer o quê?"

[Trecho do conto Daruma Arigatô, de Paulo Leminski]

sábado, 10 de outubro de 2009

BORBOLETAR

"Eu quero dizer
Agora, o oposto do que eu disse antes
Eu prefiro ser
Essa metamorfose ambulante

Do que ter aquela velha opinião
Formada sobre tudo"

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

OUSADIA É A PALAVRA

Não existe verdade absoluta. A revolução vem de baixo. Não há como ser diferente. Ascende das entranhas, das raízes mais profundas. É assim na história, porque é assim na gente. Tudo no mundo se corresponde e o óbvio sempre é o mais difícil de enxergar.

Acontecimentos se interligam em todos os níveis e não é preciso compreendê-los. Basta sentí-los, acompanhar o fluxo, caminhar em harmonia.

Negar a correnteza requer esforço. Nadar no sentido contrário, cansa. Exercita, mas é errante. Por isso, a pena vale o aprendizado, mas toma tempo e sempre acaba na margem enquanto a vida do rio corre.

No entanto, o ciclo é assim mesmo. A gente erra, insiste, se cansa e vai parar na margem. Para isso as margens - que são tantas - servem: Para nos ensinar sobre o fluxo; para aprendermos a fluir.

Eu não tenho fluído. Tenho tentado demais, errado demais, insistido demais. Me cansei demais. Perdi muitas águas e, principalmente, seu tempo. Fiz mar de água doce. Foi forte, divertido, e me perdi.

Mesmo sabendo que me perderei sempre e sempre e de novo, é bom descansar. É ótimo saber que meu rumo está bem aqui, tocando os meus pés. E, conforme o fôlego volta, me deixo fluir.

Uma revolução está por vir em mim. E essa, de tão profunda, ouso dizer que trará uma nova era, tempos duradouros. Até que a verdade caia novamente.

OUSADIA. É isso que sinto conspirar quando intensiono dar meu primeiro passo. Não importa se racionalmente parece contraditório, mas a maior segurança que sinto, intuo, vem da ousadia. Isso é fluir.


sexta-feira, 18 de setembro de 2009

"Eu preciso ouvir, você não precisa falar, nos amamos desinformados".
[Fabrício Carpinejar]

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

ÀS RISCAS

"Não quero medir a altura do tombo", jamais. Mas a grande emoção em andar na corda bamba surge quando o nível do perigo é superado.
Pode haver o infinito lá embaixo; a emoção já não vem do risco de cair, está no risco de manter-se sobre a corda, passo a passo tênue, a cada triz.

A placidez não se faz do ultrapasso do limite, mas de atingi-lo.


terça-feira, 15 de setembro de 2009

"Eu ainda era noite
e já sonhava madrugadas
Eu ainda era inverno
e já sonhava primaveras
Eu ainda era botão
e já sonhava flores.

Este todo o meu drama!

E se eu me perdi
porque de mim me parti
à procura de mais-além

de que vale então viver
se indo com os outros me atraso
se buscando ir mais além me perco?"

[Poema Labirinto, do caboverdiano Ovídio Martins]

PASSAR

"Não quero ficar parado dando adeus,
as coisas passando.
Eu quero é passar com elas
e não deixar nada mais do que as cinzas de um cigarro
e a marca de um abraço no seu corpo.
Não, não sou eu quem vai ficar no porto chorando,
lamentando o eterno movimento dos barcos."

[Trecho da canção Movimento dos Barcos, de Jards Macalé e Capinam]

sábado, 12 de setembro de 2009

PORTAS

Não sei quantas. Mas preciso chegar a cada uma. Destrancar, abrir, libertar.
Descobrir entradas e saídas.
Realizar passagens, enfim.
Tudo vale a pena. Tem de valer.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

A ESMO

O constante conflito das profundezas apavora a fluidez das ondas. Transforma a livre impulsão deste mar de emoções. Ele, que se renova entre cada chegada ao sol e retorno à imensidão, está em tempestade. Nesta tormenta, a única clareza é que os elementos estão desordenados sem harmonia.
Carregado de desequilíbrio, o mar lança as ondas sobre pedras, com insistente violência, e, de maré alta, alcança o que não deve. Por vezes, recua de repente. Outrora, ameaça um tsunami. Mesmo sob o sol forte de brilhantes dias, ou diante do frescor da manhã que surge, ou ainda com o espetáculo da noite que cái por trás, a tormenta não cessa.
No meu mar de emoções, as ondas correm a esmo. E isso acaba com os sentidos de quem escolheu viver "como uma onda no mar".

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Recordar: Do latim re-cordis, voltar a passar pelo coração.
[Eduardo Galeano]

terça-feira, 8 de setembro de 2009

"O mundo das paixões é o mundo do desequilíbrio, é contra ele que devemos esticar o arame das nossas cercas, e com as farpas de tantas fiadas tecer um crivo estreito, e sobre este crivo emaranhar uma sebe viva, cerrada e pujante, que divida e proteja a luz calma e clara da nossa casa, que cubra e esconda dos nossos olhos as trevas que ardem do outro lado; e nenhum entre nós há de transgredir esta divisa, nenhum entre nós há de estender sobre ela sequer a vista, nenhum entre nós há de cair jamais na fervura desta caldeira insana, onde uma química frívola tenta dissolver e recriar o tempo; não se profana impunemente ao tempo a substância que só ele pode empregar nas transformações, não lança contra ele o desafio quem não receba de volta o golpe implacável do seu castigo; ai daquele que brinca com fogo: terá as mãos cheias de cinza; ai daquele que se deixa arrastar pelo calor de tanta chama: terá a insônia como estigma; ai daquele que deita as costas nas achas desta lenha escusa: há de purgar todos os dias; ai daquele que cair e nessa queda se largar: há de arder em carne viva; ai daquele que queima a garganta com tanto grito: será escutado por seus gemidos; ai daquele que se antecipa no processo das mudanças: terá as mãos cheias de sangue; ai daquele, mais lascivo, que tudo quer ver e sentir de um modo intenso: terá as mãos cheias de gesso, ou pó de osso, de um branco frio, ou quem sabe sepulcral, mas sempre a negação de tanta intensidade e tantas cores: acaba por nada ver, de tanto que quer ver; acaba por nada sentir, de tanto que quer sentir; acaba por só expiar, de tanto que quer viver; cuidem-se os apaixonados, afastando dos olhos a poeira ruiva que lhes turva a vista, arrancando dos ouvidos os escaravelhos que provocam turbilhões confusos, expurgando do humor das glândulas o visgo peçonhento e maldito; erguer uma cerca ou guardar simplesmente o corpo, são esses os artifícios que devemos usar para impedir que as trevas de um lado invadam e contaminem a luz do outro, afinal, que força tem o redemoinho que varre o chão e rodopia doidamente e ronda a casa feito fantasma, se não expomos nossos olhos à sua poeira? é através do recolhimento que escapamos ao perigo das paixões, mas ninguém no seu entendimento há de achar que devamos sempre cruzar os braços, pois em terras ociosas é que viceja a erva daninha".


[Raduan Nassar, Lavoura arcaica]

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

"Enquanto dura o baixo astral, perco tudo. As coisas caem dos meus bolsos e da minha memória: perco chaves, canetas, dinheiro, documentos, nomes, caras, palavras. Eu não sei se será mau-olhado.
Pura casualidade, mas às vezes a depressão demora em ir embora e eu ando de perda em perda, perco o que encontro, não encontro o que eu busco, e sinto medo que numa dessas distrações, acabe deixando a vida cair".

[Eduardo Galeano, O Baixo Astral, em O Livro dos Abraços]

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

"Assovia o vento dentro de mim. Estou despido. Dono de nada,
dono de ninguém, nem mesmo dono de minhas certezas, sou
minha cara contra o vento, a contravento, e sou o vento que bate
em minha cara."


"Tem gente de fogos grandes e fogos pequenos e fogos de todas as cores. Tem gente de fogo sereno, que nem percebe o vento, e gente de fogo louco, que enche o ar de faíscas; alguns fogos, fogos bobos, não iluminam nem queimam, mas outros ardem a vida com tanta vontade, que não se pode vê-los sem piscar, e quem se aproxima se incendeia."

[Eduardo Galeano]

A ESSÊNCIA DA POESIA

"Não aprendi nos livros qualquer receita para a composição de um poema; e não deixarei impresso, por meu turno, nem sequer um conselho, modo ou estilo para que os novos poetas recebam de mim alguma gota de suposta sabedoria. Se narrei neste discurso alguns sucessos do passado, se revivi um nunca esquecido relato nesta ocasião e neste lugar tão diferentes do sucedido, é porque durante a minha vida encontrei sempre em alguma parte a asseveração necessária, a fórmula que me aguardava, não para se endurecer nas minhas palavras, mas para me explicar a mim próprio.
Encontrei, naquela longa jornada, as doses necessárias para a formação do poema. Ali me foram dadas as contribuições da terra e da alma. E penso que a poesia é uma ação passageira ou solene em que entram em doses medidas a solidão e solidariedade, o sentimento e a ação, a intimidade da própria pessoa, a intimidade do homem e a revelação secreta da Natureza. E penso com não menor fé que tudo se apoia - o homem e a sua sombra, o homem e a sua atitude, o homem e a sua poesia - numa comunidade cada vez mais extensa, num exercício que integrará para sempre em nós a realidade e os sonhos, pois assim os une e confunde.
E digo igualmente que não sei, depois de tantos anos, se aquelas lições que recebi ao cruzar um rio vertiginoso, ao dançar em torno do crânio de uma vaca, ao banhar os pés na água purificadora das mais elevadas regiões, digo que não sei se aquilo saía de mim mesmo para se comunicar depois a muitos outros seres ou era a mensagem que os outros homens me enviavam como exigência ou embrazamento. Não sei se aquilo o vivi ou escrevi, não sei se foram verdade ou poesia, transição ou eternidade, os versos que experimentei naquele momento, as experiências que cantei mais tarde.
De tudo aquilo, amigos, surge um ensinamento que o poeta deve aprender dos outros homens. Não há solidão inexpugnável. Todos os caminhos conduzem ao mesmo ponto: à comunicação do que somos. E é necessário atravessar a solidão e aspereza, a incomunicação e o silêncio para chegar ao recinto mágico em que podemos dançar com hesitação ou cantar com melancolia, mas nessa dança ou nessa canção acham-se consumados os mais antigos ritos da consciência; da consciência de serem homens e de acreditarem num destino comum".

[Pablo Neruda, em "Nasci para Nascer" (Discurso na entrega do Prémio Nobel)]

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

LADO ESQUERDO

Proclamação: Estou, definitivamente (até que a definição mude), ao lado esquerdo. E solta, solta demais, apesar do aperto.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

MESMO CICLO

;vivo num ciclo. volto sempre aos mesmos erros. não sei como escapar. nem tudo dá pra recomeçar.
como expandi- lo? nunca encontrei respostas. só a ilusão de ter respondido. sempre me perco no mesmo cruzamento. faço o retorno. chego ao mesmo beco sem saída aparente. meu único trunfo é saber que há saída. a certeza impede a queda. a certeza não evita o desespero.
me aventuro na roda gigante, a qual finjo ser montanha russa...

Aconteceu como chegam os crepúsculos: Uma leve brisa de outono que, intensa na sua sutileza, arrepia a nuca e provoca um suspiro profundo. Nele, sente-se o cheiro de eternidade, por mais que a naturalidade das cores anuncie a noite e o frio; mesmo que os pássaros partam como fugindo do fim.
Acontece a cada momento realizado, sempre eterno.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

NOITE DE DRUMMOND

"Acordar, viver

Como acordar sem sofrimento?
Recomeçar sem horror?
O sono transportou-me
àquele reino onde não existe vida
e eu quedo inerte sem paixão.

Como repetir, dia seguinte após dia seguinte,
a fábula inconclusa,
suportar a semelhança das coisas ásperas
de amanhã com as coisas ásperas de hoje?

Como proteger-me das feridas
que rasga em mim o acontecimento,
qualquer acontecimento
que lembra a Terra e sua púrpura
demente?
E mais aquela ferida que me inflijo
a cada hora, algoz
do inocente que não sou?

Ninguém responde, a vida é pétrea."



"A hora do cansaço

As coisas que amamos,
as pessoas que amamos
são eternas até certo ponto.
Duram o infinito variável
no limite de nosso poder
de respirar a eternidade.

Pensá-las é pensar que não acabam nunca,
dar-lhes moldura de granito.
De outra matéria se tornam, absoluta,
numa outra (maior) realidade.

Começam a esmaecer quando nos cansamos,
e todos nós cansamos, por um outro itinerário,
de aspirar a resina do eterno.
Já não pretendemos que sejam imperecíveis.
Restituímos cada ser e coisa à condição precária,
rebaixamos o amor ao estado de utilidade.

Do sonho de eterno fica esse gosto ocre
na boca ou na mente, sei lá, talvez no ar."

"OS OMBROS SUPORTAM O MUNDO

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teu ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação."


"Quero que todos os dias do ano
todos os dias da vida
de meia em meia hora
de 5 em 5 minutos
me digas: Eu te amo.

Ouvindo-te dizer: Eu te amo,
creio, no momento, que sou amado.
No momento anterior
e no seguinte,
como sabê-lo?

Quero que me repitas até a exaustão
que me amas que me amas que me amas.
Do contrário evapora-se a amação
pois ao não dizer: Eu te amo,
desmentes
apagas
teu amor por mim.

Exijo de ti o perene comunicado.
Não exijo senão isto,
isto sempre, isto cada vez mais.
Quero ser amado por e em tua palavra
nem sei de outra maneira a não ser esta
de reconhecer o dom amoroso,
a perfeita maneira de saber-se amado:
amor na raiz da palavra
e na sua emissão,
amor
saltando da língua nacional,
amor
feito som
vibração espacial.

No momento em que não me dizes:
Eu te amo,
inexoravelmente sei
que deixaste de amar-me,
que nunca me amastes antes.

Se não me disseres urgente repetido
Eu te amoamoamoamoamo,
verdade fulminante que acabas de desentranhar,
eu me precipito no caos,
essa coleção de objetos de não-amor."



"Desejo

Desejo primeiro que você ame,
E que amando, também seja amado.
E que se não for, seja breve em esquecer.
E que esquecendo, não guarde mágoa.

Desejo, pois, que não seja assim
Mas se for, saiba ser sem se desesperar
Desejo também que tenha amigos
Que mesmo maus e inconseqüentes
Sejam corajosos e fiéis
E que pelo menos em um deles
Você possa confiar sem duvidar

E porque a vida é assim
Desejo ainda que você tenha inimigos
Nem muitos, nem poucos
Mas na medida exata para que
Algumas vezes você se interpele
A respeito de suas próprias certezas.
E que entre eles
Haja pelo menos um que seja justo

Desejo depois, que você seja útil
Mas não insubstituível
E que nos maus momentos
Quando não restar mais nada
Essa utilidade seja suficiente
Para manter você de pé.

Desejo ainda que você seja tolerante
Não com os que erram pouco
Porque isso é fácil
Mas com os que erram muito e irremediavelmente
E que fazendo bom uso dessa tolerância
Você sirva de exemplo aos outros

Desejo que você, sendo jovem,
Não amadureça depressa demais
E que sendo maduro
Não insista em rejuvenescer
E que sendo velho
Não se dedique ao desespero
Porque cada idade tem o seu prazer e a sua dor

Desejo, por sinal, que você seja triste
Não o ano todo, mas apenas um dia
Mas que nesse dia
Descubra que o riso diário é bom
O riso habitual é insosso
E o riso constante é insano.

Desejo que você descubra
Com o máximo de urgência
Acima e a respeito de tudo
Que existem oprimidos, injustiçados e infelizes
E que estão bem à sua volta
Desejo ainda
Que você afague um gato, alimente um cuco
E ouça o joão-de-barro
Erguer triunfante o seu canto matinal
Porque assim, você se sentirá bem por nada

Desejo também
Que você plante uma semente, por menor que seja
E acompanhe o seu crescimento
Para que você saiba
De quantas muitas vidas é feita uma árvore

Desejo, outrossim, que você tenha dinheiro
Porque é preciso ser prático
E que pelo menos uma vez por ano
Coloque um pouco dele na sua frente e diga:
"Isso é meu"
Só para que fique bem claro
Quem é o dono de quem

Desejo também
Que nenhum de seus afetos morra
Por eles e por você
Mas que se morrer
Você possa chorar sem se lamentar
E sofrer sem se culpar

Desejo por fim
Que você sendo homem, tenha uma boa mulher
E que sendo mulher, tenha um bom homem
Que se amem hoje, amanhã e nos dias seguintes
E quando estiverem exaustos e sorridentes
Ainda haja amor pra recomeçar

E se tudo isso acontecer
Não tenho mais nada a lhe desejar"



[Victor Hugo]

sábado, 15 de agosto de 2009

Que este tempo seco não acabe com a liquidez das emoções, a lubrificação das lembranças, a intensidade das ondas da mudança, a velocidade da correnteza que me leva, por mais que por vezes eu nade contra. Que o tempo não seque minha coragem de acreditar.

Diálogo

"— E você, por que desvia o olhar?

(Porque eu tenho medo de altura. Tenho medo de cair para dentro de você. Há nos seus olhos certos desenhos que me lembram montanhas, cordilheiras vistas do alto, em miniatura. Então, eu desvio os meus olhos para amarrá-los em qualquer pedra no chão e me salvar do amor. Mas, hoje, não encontraram pedra. Encontraram flor. E eu me agarrei às pétalas o mais que pude, sem sequer perceber que estava plantada num desses abismos, dentro dos seus olhos.)

— Ah. Porque eu sou tímida."

[Apoena]

domingo, 2 de agosto de 2009

"O quereres e o estares sempre a fim do que em mim é de mim tão
desigual

Faz-me querer-te bem, querer-te mal, bem a ti, mal ao quereres
assim

Infinitivamente pessoal, e eu querendo querer-te sem ter fim

E querendo te aprender o total do querer que há e do que não há
em mim"

[Chico e Caetano]

quinta-feira, 23 de julho de 2009

CONQUISTAS E REVOLUÇÕES

Me disseram: - Nossa, você vive mudando.
É verdade. Não me contenho quando algo não me faz mais mover, quando não me cativa o suficiente ou se torna indiferente. Preciso ser conquistada, constantemente.
Em mim, não existe o que "vem, fica e vai ficando"; existe sim o que "vem, fica, e fica, e fica e, mais uma vez, fica", sem parar. Assim como há o que vem e passa... como vendaval ou brisa.
A maioria das conquistas que sofri foram recíprocas - e também as que protagonizei. Acho que elas acontecem simultaneamente. É o movimento. E este, quando cessa, acaba com qualquer possibilidade de continuação.
Estagnação não tem energia, é ponto morto e nada a perder. Acho triste. Mas, quando ocorre, eu quase sempre insisto, tento injetar ânimo - se o tenho - e encaro.
Eu ENCARO. Por mais que adie. Então, eu mudo. Com ou sem remorso.
No entanto, minha mudança não é só reação. Na maioria das vezes, é ação. Pois é, também, minha maneira de fugir de estar parada. É meu modo de reconquistar a vida. De recomeçar a felicidade e alcançar novas emoções. De gerar possibilidades.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

SOB LIBERDADE

Chegou o momento de fazer o que se deve em detrimento, muitas vezes, do que de fato se quer fazer. Tudo para alcançar um desejo maior, que justificaria todas as renúncias.

É preciso sabedoria e coragem. Uma, para conseguir balancear a rotina e as urgências. Outra, para seguir o caminho sem cair. E é imprescindível o prazer para, no fim da labuta, reconhecer que tudo valeu a pena.

Penar é inevitável, conforme a elevação do objetivo e na medida em que o alcance se aproxima. Aceitar as penas é o primeiro passo para deixa-las mais leves.
Me convenço que se acredito que algo é possível, realmente é. Caso depois não seja, a culpa é minha.

Por isso, creio na liberdade e, ainda mais, na capacidade de nos libertarmos. A liberdade é, antes de tudo, a renúncia.

Grandes metas exigem difíceis renúncias. Assim, quanto mais se alcança, a menos se está preso.

Há chegado o tempo de libertar.

domingo, 12 de julho de 2009

Mon Amour



"Mon amour
Mon amour, mon amour, mon amour

Buy me the moon and bring all the stars together
Inside my room the world is a spaceship to somewhere
I don't know, I don't care
As long as I go on dancing... with Fred Astaire

Kiss me I'm sweet no matter how bitter life is
Down in the street I look for a never ending love
Maybe pearls
Could steal any girl's... dream
I get high, me and my big mind
I get down, down, yeah
Me and my little money, honey

Drink and dance and laugh and lie
Love the reeling midnight through
For tomorrow we way die but today...
We never do"

[Rita Lee]

A VIDA COMO FILME

"A vida é como um filme". Acabo de ouvir essa frase, a primera do filme que começou na TV. Me chamou a atenção pois, por várias vezes, pensei parecido . Em situações corriqueiras, me imaginei num filme, tragicômico, a maioria das vezes. Por exemplo, quando estava encrencada com o lead de uma matéria. Minha editora disse que deveria entregá-la em 40 minutos. Neste momento, imaginei uma câmera se aproximando e, num close fechado, se veria meus dentes cerrados, talvez uma gota de suor escorrendo - se não fosse o gelado ar-condionado da redação -, meus olhos olhando de um lado para o outro e, em seguida, meu pensamento "diria", em off: to ferrada.
Na verdade, além de "to ferrada", pensei que não conseguiria terminar no dead line estipulado, Assim que os 40 minutos passassem, teria que pedir, na cara de pau, mais meia hora. Também cogitei a possibilidade de ser acometida por uma habilidade surpresa. Superaria as espectativas.
Num filme não haveria escolha, e, como trata-se de uma personagem desesperada de tragédias cômicas, 30 segundos depois, a pretensa repórter teria sido atropelada pelos 40 minutos e por uma bronca da chefe. No entanto, na vida há possibilidades, inclusive, de mudar o gênero da trama.
"A vida é como uma história que a gente escreve. Eu não quero ser atriz, quero ser a personagem", disseram no filme. Estranhamente, a vida é menos óbvia que os filmes... Acho que é questão de continuidade. O tempo cinematográfico ultrapassa a velocidade dos acontecimentos. Na vida, não se pode pular acontecimentos, feitos de minuciosidades.
Aquela minha situação terminou de nenhuma maneira avassaladora. A chefe teve uma reunião no momento e acabei recebendo 20 minutos extras para terminar. São as casualidades da vida, onde revesamos com o destino a função de diretor e de roteirista. No caso, dirigi a situação que o destino escreveu. Em casos como quando prometemos começar uma dieta no dia seguinte, se no próximo set lá estivermos nós nos empanturrando de chocolate, a culpa será de nosso roteiro.
Há também os momentos de improviso, onde não há roteiro nem direção e toda a cena depende da habilidade do progonista. E esses momentos, talvez os mais marcantes da vida, jamais caberão na obviedade dos filmes.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Do Desejo

"Colada à tua boca a minha desordem.
O meu vasto querer.
O incompossível se fazendo ordem.
Colada à tua boca, mas descomedida
Árdua
Construtor de ilusões examino-te sôfrega
Como se fosses morrer colado à minha boca.
Como se fosse nascer
E tu fosses o dia magnânimo
Eu te sorvo extremada à luz do amanhecer."
[Hilda Hilst]

domingo, 28 de junho de 2009

NEW WAVE

Eu gosto mesmo é do novo e, principalmente, do momento em que ele acontece. Definitivamente, a maioria das coisas em minha vida acontecem quando tem de acontecer. Às vezes, chegam meio atrasadas, só pra eu aprender a esperar e para testar e ampliar meus limites. Outras vezes, chegam adiantadas e me pegam de surpresa, me lembrando de que não sou tão dona assim de meu tempo.

Coisas novas mudam a rotina, balançam as estruturas, tiram tudo do lugar. Desarrumam cada espaço e te fazem estar em constante busca por uma melhor organização de si mesmo. Apontam a desnecessidade de coisas até então fundamentais, assim como evidenciam o quão despreocupado você tem sido com alguns pontos de sua vida.

Iniciar é sempre bom e é a melhor parte de qualquer coisa que aconteça. É aprendizado e inovação... Sob coragem.

"Centímetros
sentimentos mínimos"
P.L

"A POESIA É UM INUTENCÍLIO"
Paulo Leminski